quarta-feira, 14 de março de 2012

Tema: Memória e Imagem


Artigo

Grande demais

De Vladimir Safatle
Tema para refletir sobre Mémoria e Imagem:



“Os artistas são como os filósofos, têm freqüentemente uma saúde frágil, não por causa de suas doenças ou de suas neuroses, mas porque viram na vida algo grande demais para qualquer um, grande demais para eles, e que pôs neles a marca discreta da morte” .Tal afirmação de Gilles Deleuze e Féliz Quattari tem o mérito de fornecer um diagnóstico de época.


Se a idéia estiver correta, então a arte e a filosofia sempre perderão força em épocas que têm medo da doença e da neurose, épocas que vêem nelas apenas momentos vazios que devem ser  aniquilados o mais rápido possível.


Mas, muitas vezes, a doença é, no fundo, a preservação de um futuro em suspenso. Seu trabalho consiste em lembrar-nos que nossa saúde ficou  pequena demais, que a vida que se repete na saúde não consegue produzir formas para o que parece  “grande demais”. Por isso, a saúde que encontramos depois da doença nunca é o retorno ao estado anterior. Compreender que nunca voltaremos ao estado anterior é condição para romper com a fixação em algo que acaba apenas por nos aprisionar no que não tem mais força para perpetuar-se.


Alguns podem ver nesse  “topos” uma recuperação da velha crença romântica tardia na “formação pelo sofrimento”. Outros veriam, ao contrário, uma maneira peculiar de acreditar que a vida sempre consegue encontrar respostas para os problemas que ela mesma coloca, desde que estejamos dispostos a ouvir as perguntas.


Como bem nos mostrou um psicanalista como Jacques Lacan, as neuroses são questões, assim como a doença é um tensionamento da vida – o que talvez nos explique porque não há organismo absolutamente saudável, nem sujeito desprovido de sintoma.


Essa é uma estratégia dos que acreditam que a verdadeira perspectiva moral consiste em estar à altura do que nos ocorre. Os que sentiram com muita proximidade a neurose podem usar suas forças para esquecê-la, um pouco como gostaríamos que nosso organismo esquecesse as doenças pelas quais passou. Outros encontrarão nela suas melhores questões, de maneira distorcida e mal colocada.


Que um dos maiores artistas plásticos vivos, Anselm Kiefer, tenha construído um impressionante conjunto de obras a partir de materiais em ruínas, lembranças gastas, imagens de grandiosidade envelhecidas pelo tempo, eis algo que parece validar a afirmação de Deleuze e Guattari. Sua obra lembra como há algo que passou arruinando as formas que tínhamos, algo que deixou nossas figuras “pequenas demais”, imprimindo nelas a marca discreta da morte. Tais artistas nos mostram que nossa época não conhece o verdadeiro movimento.


Vladimir Safatle,  artigo retirado da Folha de S.Paulo, (13.03.2012)


O artista, esse ser de saúde frágil que vê algo grande demais, aquele que está próximo da dor, como o ser doente - da vida que se repete na saúde, e nunca voltamos ao estado anterior, como bem demonstra o filósofo e escritor Valdemir Safatle, neste artigo pertinente para se discutir o tempo, a memória e imagem, onde a posição ética de todo artista na elaboração de seu processo, cabe investigar sua matéria prima, aquilo com o que ele constrói, no embasamento do trabalho, no que cabe nesta experiência de morte e elaboração com a criatividade.
 

Discutimos também a importância da Exposição de Alberto Giacometti,  com a proposta de estudar esse artista antes de ver a exposição em Março na Pinacoteca
Alberto Giacometti, por conta de seus interesses e da amizade com o escritor e filósofo Jean-Paul Satre, foi o artista mais associado ao existencialismo. Estudou com  Antoine Bourdelle e foi influenciado por Constantin Brancusi e Jacques Lipchitz, começando a fazer experiências com o cubismo e o construtivismo. Conheceu André Breton em 1930, juntando-se aos surrealistas. Em 1939, conheceu Satre e Simone de Beauvoir. Para fugir da França ocupada pelos nazistas, voltou para Genebra, trabalhando com imagens que guardara dos modelos, criando pequenas esculturas figurativas. Considerado um dos fundadores do Modernismo.



Ver mais como sugestão sobre Giacometti aqui no site Wikipaintings
A retrospectiva de Alberto Giacometti começa no dia 24/03 na Pinacoteca de SP - "Alberto Giacometti: Coleção da Fondation Alberto et Annette Giacometti, Paris", com 280 obras - entre pinturas , esculturas, gravuras, fotografias e documentos.
Outra sugestão antes de visitar os seus trabalhos é ver a exibição do filme - "O que é uma cabeça? ou a Passagem do tempo", sobre a trajetória do artista, disponível na locadora 2001.








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Elaborado por Juracy

sexta-feira, 9 de março de 2012

Reflexões Contraponto



Hans Hofmann

Foi introduzido no nosso encontro em 7 de março, por Sergio Fingermann, o artista Hans Hofmann, com excertos de suas aulas, onde transcrevo aqui alguns trechos que nos interessou para discutir o “tempo e a memória”, retirado de “Teorias da Arte Moderna” de H.B. Chipp, editora Martins Fontes.




. Natureza: a fonte de toda inspiração. Se o artista buscar os seus trabalhos diretamente na natureza, na memória ou na fantasia, a natureza sempre será a fonte dos seus impulsos criadores.

O Artista : é o agente em cujo pensamento a natureza se transforma numa fonte de criação. O artista aborda os seus problemas do ponto de vista metafísico. Sua faculdade intuitiva de sentir as propriedades inerentes às coisas dominam o seu instinto criativo.

Criação : é a síntese, do ponto de vista do artista, da matéria, do espaço e da cor. A criação não é a reprodução do fato observado.

  Espaço positivo: é a presença da matéria visível. Espaço negativo: é a configuração ou a “constelação” dos vazios entre e em volta das porções de matéria visível. No sentido científico, partícula de luz; no sentido artístico, a percepção das diferenças plásticas e psicológicas das nuanças de luz. Essas diferenças plásticas são concebidas como intervalos de cor, os quais se assemelham às tensões, vale dizer, às forças correlacionadas entre duas ou mais formas sólidas.

Visão: Na natureza, a luz cria a sensação de cor; num quadro, a cor cria a luz. É o estímulo do nervo ótico causado pela luz; artisticamente, é a consciência das variações na natureza desse estímulo que permite a distinção do espaço negativo, do positivo e da cor.


Empatia: é a projeção imaginativa da consciência de uma pessoa sobre outra, ou sobre alguma coisa. Na experiência visual, é a faculdade intuitiva para sentir as propriedades das relações (ou tensões) formais e espaciais e descobrir as características plásticas e psicológicas da forma e da cor. Meio de expressão: são os meios materiais através dos quais as idéias e emoções adquirem uma determinada forma visível. Cada meio de expressão tem a sua própria natureza e vida, de acordo com as quais os impulsos criativos são visualizados.
  O artista deve não só interpretar criativamente a sua experiência da natureza como também traduzir o seu sentimento da natureza numa interpretação criativa do “meio de expressão”. A natureza do meio de expressão se faz em parte através do processo de criação

. Plano Pictórico: É o plano ou a superfície onde a pintura existe. A essência do plano pictórico é a total ausência de relevo. Plano é sinônimo de duas dimensões. Plasticidade: é a transferência da percepção tridimensional para duas dimensões. Uma obra de arte é plástica quando a mensagem pictórica está integrada ao plano pictórico e quando a natureza está incorporada aos termos das propriedades do meio de expressão.

Espiritualidade: é a síntese intelectual e emocional das relações percebidas, racional ou intuitivamente, na natureza. A espiritualidade no sentido artístico não se confunde com a de conotação religiosa.

  Realidade: Artisticamente é uma consciência. Há dois tipos de realidade: a física, apreendida pelos sentidos, e a espiritual, criada, emocional e intelectualmente pelos poderes conscientes e inconscientes da mente.


Sobre o objetivo e a Natureza da Arte


O objetivo, até onde se pode falar em objetivo, tem sido sempre o mesmo: é a fusão da experiência obtida através da vida com as naturais características próprias da arte como meio de expressão. A intuição artística é a base que confere segurança ao espírito. A arte é um reflexo do espírito, um resultado de introspecção que encontra expressão na natureza da arte. Quando o artista é bem dotado – aquele que tem um sentimento consciente, boa memória e uma sensibilidade equilibrada – ele intensifica os seus conceitos, penetrando na sua subjetividade que é condensada à sua experiência de modo a formar uma realidade do espírito completa em si mesma. Dessa forma ele cria uma nova realidade em termos de meio de expressão. O meio de expressão se converte na obra de arte, desde que o artista seja intuitivo e ao mesmo tempo domine a natureza essencial da arte e os princípios que a governam.
Uma obra de arte é um mundo em si que reflete as percepções e emoções do mundo do artista. Tal como a flor, que, devido a sua existência como um organismo completo, é ornamental e ao mesmo tempo auto-suficiente quanto à cor, forma e textura, também a arte tem uma existência singular e é mais do que um simples ornamento.


Sobre a criação



A mente criativa e abrangente não conhece fronteiras. A mente nunca pára de ter novos domínios sob seu controle. Todas as nossas experiências culminam na percepção do universo como um todo e do homem como seu centro. A experiência visual não pode basear-se exclusivamente no sentimento e na percepção. Os sentimentos e percepções que não são sublimados pela essência das coisas se perdem no sentimental.
Toda expressão artística profunda é a soma do sentimento consciente mais a realidade. Isto se refere à realidade da natureza e à realidade da vida intrínseca ao meio de expressão. A diferença entre a arte produzida por crianças e as grandes obras de arte é que a primeira se situa ao nível do subconsciente e do emocional, enquanto a segunda se faz por meio de uma percepção consciente durante o desenrolar da obra e tem no plano emocional um maior controle sobre o meio de expressão. Para se perceber visualmente e transformar em termos plásticos o que foi percebido, é necessário a faculdade de empatia. (pg. 547).



Hans Hofmann ( 1880-1966) , pintor expressionista abstrato, professor influente de toda uma geração de artistas. Ele aprendeu e escreveu a respeito de suas próprias teorias de composição e cor por toda a vida, explorando incansavelmente a estrutrura pictórica, as tensões espaciais e as relações entre as cores. Segundo Sergio Fingermann: “Hofmann no fala da natureza como fonte de inspiração, este olhar para fora, como experiência de percurso, mas também na transcendência, na intuição, no instinto criativo, como forma de elaborar a experiência. Onde a criação não é a reprodução do fato observado, mas a elaboração destas sensações. Fala do plano pictórico como espaço de ilusão. O ver no engano, na ilusão , na superfície onde a pintura existe. Dar consciência ao ato de pintar.” Como leitura complementar foi sugerido o “Viajante e a sua sombra” de Nietzsche, e o filme “As praias de Agnes Varda”


Ver mais sobre  Hans Hofmann aqui.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Anotações


Interlocução x interlocutores



Escuto e escrevo  no meu caderno de anotações:  “ O pintar como arquitetura de um espaço”,  frase de Sergio Fingermann;  frase grifada ao longo  destas orientações, sempre dita e redita,  perseguindo este fazer , como um ar sonoro, um beliscão na pele, um cisco no olho. Frase que se constrói neste fazer:  O que é este espaço de arquitetura de uma tela? O que representa a Tela? Onde está a parte desta memória e do sensível ? O que diz esse Pintar?.



Indagações que nos mostraram um outro modo de ver, um exercício de construção, de olhar e de ter gestos lentos; o que se consegue ver numa tela está na possibilidade de manter-se à distancia,  e  mudando-se sempre de distancia, de lugar e, afastando-se da tela, alteramos o foco, sempre ser o viajante e  viajar nesta procura de olhar.  A tela, diz ainda Sergio F., pede e sugere o seu tempo acumulado, onde ao aprisionar o olhar neste fazer nos dá o todo do trabalho; o trabalho na experiência, onde a tela  guarda sua linguagem dilatada no tempo desta espera e afastamento.

Nuances e questionamentos que se dissolvem na tela. Estão lá e não estão, tudo se constrói e se esvai ao mesmo tempo. Pintar é estar nesta flutuação perpétua e incerta, na busca daquilo que foge:  “O que está “entre” não se vê”, outra frase, outra experiência que se abrem diante dos meus olhos.  Se a imagem é um artifício, o que se vê? O que se faz?, se pintar é estar distraído ou rigidamente atento? Onde sou quando vejo?

Apreendo em meu fazer que “ A tela é um Palco”, que se faz na estratégia de um diretor, de tirar, subtrair tudo o que se reveste nas formas deste ver, e de organizar o visível, aquilo que se quer mostrar, e neste trabalho de foco e subtração, onde esta a luz?. Se a pintura pode ter e ser esse espaço de arquitetura, cores e formas sobem à cena para revelar suas encenações, e você como diretor, sabe priorizar o que  quer ser dito?



“ A poesia da pintura está na criação da ilusão”, “ Todo desenho é uma sombra ao redor  da luz, onde o tempo dilatado se faz” (Fingermann). Sempre adiar a forma, abstrair o tempo no gerúndio, procure a espessura da obra  que nunca, nunca  está na tendência, “ mas nas sua poética pessoal”.

 O conteúdo da arte não está na imagem- mas além dela”.  E assim fui anotando, e assim fui construindo , percorrendo o meu processo, e aprendendo que o que pintamos não se vê, está entre a pintura e este fazer. Um desafio de eternas angústias neste espaço de arquitetura que tropeçamos com o ego, se não escutar com a alma.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Este fazer arte.... onde o verso é denso...


Arte Poética



A Poesia não me pede propriamente uma especialização, pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que  a poesia me pede. Nem me pede uma ciência  nem uma estética, nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui como uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena,  pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.



Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala de ma vida real, mas sim duma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncios, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume de tília e do orégão.

É esta relação com o universo que define o poema com o poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.

É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo poeta, todo artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é, da relação com uma matéria, como nas artes artesanais.

O artesanato das artes poética  nasce da própria poesia, à qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz: “obscuro”,  “amplo”, “ barco”, “pedra”, é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o “obstinado rigor” do poema.

O verso é denso, tenso como um arco, exatamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos.

O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si. E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.



Sophia de Mello Brekner Andresen. (in: Geografia. Lisboa, Salamandra, 1990)

contribuiçao: Juracy Giovagnolho dos Santos

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O que carregamos?????


Hoje discutimos as tensões e contradições  do fazer “arte”. O estado de alerta para o presente,  que não é apenas uma necessidade ontológica,  é um desafio para um momento de pouca reflexão- nos quais a arte também participa, e, mesmo provoca.

Drummond, o poeta,  responde a esse desafio em sua obra. Poeta debruçado sobre as indagações da função da poesia no mundo; volta-se para a questão anterior à natureza e da essência da poesia. Como o pintor no seu processo de criação, e se indaga o que vêm antes desse pintar,  o que se carrega?

A arte de seu poema nos faz percorrer esse caminho, quando retira das coisas do esquecimento, dá-lhes forma, cor, tato e vértebra; escava sua argila; revelando/ocultando e desacreditando nas evidências em favor do jogo do “claro enigma”, que de luz e sombras  inscreve a imagem em movimento.

Este olhar que reveste-se de outros olhares: de presença-ausências,  ocultando ou revelando o seu objeto “coisa”: “ o que afinal carregamos” .)

“O tempo dilato do sensível no extraordinário, da ordem do incomum. Toda função artística opera tangenciando o tema ( que é sempre artifício), o que importa neste fazer sempre é o espanto” ( Sergio Fingermamm).

Assim é preciso ler o poema:

Carrego comigo

Carrego comigo

Há dezenas de anos
Há centenas de anos
O pequeno embrulho.

Serão duas cartas?
Será uma flor?
Será um retrato?
Um lenço talvez?

Já não me recordo
Onde o encontrei.
Se foi um presente
Ou se foi furtado.

Se os anjos desceram
Trazendo-o nas mãos,
Se boiava no rio,
Se pairava no ar.

Não ouso entreabri-lo.
Que coisa contém
Ou se algo contém,
Nunca saberei

Como poderia
Tentar esse gesto?
O embrulho é tão frio
E também tão quente.

Ele arde nas mãos,
É doce ao meu tato.
Pronto me fascina
E me deixa triste.

Guardar um segredo
Em si e consigo,
Não querer sabê-lo
Ou querer demais.


Guardar um segredo
De seus próprios olhos,
Por baixo do sono,
Atrás da lembrança.


A boca experiente
Saúda os amigos.
Mão aperta mão,
Peito se dilata.

Vem do mar o apelo,
Vêm das coisas gritos.
O mundo te chama:
Carlos!  Não respondes?

Quero responder.
A rua infinita
Vai além do mar.
Quero caminhar.

Mas o embrulho pesa.
Vem a tentação
De jogá-lo ao fundo
Da primeira vala.

Ou talvez queimá-lo:
Cinzas se dispersam
E não fica sombra
Sequer, nem remorso.

Ai, fardo sutil
Que antes me carregas
Do que és carregado,
Para onde me levas?


Por que não me dizes
A palavra dura
Oculta em teu seio,
Carga intolerável?


Seguir-te submisso
Por tanto caminho
Sem saber de ti
Senão que te sigo.

Se agora te abrisses
E te revelasses
Mesmo em forma de erro,
Que alívio seria!


Mas ficas fechado.
Carrego-te à noite
Se vou para o baile.
De manhã te levo

Para a escura fábrica
De negro subúrbio.
És , de fato,  amigo
Secreto e evidente.

Perder-te seria
Perder-me a mim próprio.
Sou um homem livre
Mas levo uma coisa.

Não sei o que seja.
Eu não o escolhi.
Jamais a fitei.
Mas levo uma coisa.


Não estou vazio,
Mas estou sozinho,
Pois anda comigo

Algo indescritível.





Carlos  Drummond de Andrade.





segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A origem da obra de arte

A origem da obra de arte,
De Martin Heidegger.


Leitura sugerida para as discussões e reflexões sobre Arte, do grupo Contraponto.
O que é a obra de arte?
como uma coisa pode se tornar arte?

Estas são perguntas fundamentais quando se trata do fenômeno artístico. Afinal não podemos falar de "arte" sem nos remetermos à "obra de arte"
Na história da filosofia, há muitos filósofos que interrogam-se acerca da arte e do que a define. Para o filósofo alemão, Martin Heidegger, em seu livro: A Origem da Obra de arte, encontramos algumas destas reflexões, procurando mostrar que a Arte deve ser entendida pela perspectiva do que a "coisa" é, e para isso ele desmembra o conceito sobre "coisa" em três modalidades: quanto ao "suporte", a "unidade" dos sentidos, e a sua coisicidade ou "materialidade".


Origem significa aquilo a partir do qual e através do qual uma coisa é e o que é, e como é"
Segundo Heidegger, a origem de algo esta na sua essência, e a obra surge apartir e através da atividade Do artista - e é pela obra que se conhece o artista.

Mas o que é e como é uma obra de arte? Se:

Toda obra têm este caráter de coisa.
O monumento está na pedra.
A escultura está na Madeira.
O quadro está na cor.
A obra musical está no som.

O que define o ser de uma obra de arte?
Segundo Heidegger: a obra de arte é ainda algo de outro, para além de seu caráter de coisa.
Para Heidegger toda arte é um poema. Quando olhamos para os sapatos da camponesa de Van Gogh, os poemas de Hölderlin ou um templo grego, as representações que aí se mostram, podem nos revelar o outro lado das coisas, e utilizar o que vemos como ponto de partida para o sentido da Arte e sua essência.
Exemplificando essa transformação, o autor nos diz:
" Uma estátua em pedra será uma obra de arte ou uma pedra feita em arte?
A coisa- pedra é transformada em coisa- arte através do artifício do artista e é a alma deste que confere vida à pedra e a transforma em arte.
O que confere aos sapatos de Van Gogh algo desta representação em arte, diferente de ser um mero apetrecho "sapato" é esta possibilidade para além de seu caráter de coisa.
Van Gogh confere aos sapatos a apreensão da subjetividade do artista, ultrapassando à própria imagem, criando ou recriando a noção que guardamos de um objeto, permitindo distinguir o real da representação, e assumindo o caráter de transpor ao nosso imaginário  a função real do objeto para além do "ser" objeto.
Portanto, só é possível decifrar uma obra de arte e o conteúdo humano de que o artista a imprimiu, quando se descobre a  "leitura complexa que toda imagem oferece", onde a intuição apercebe-se de imediato que toda a imagem é um sinal onde, como um rosto, podemos encontrar, para além da semelhança e da beleza a inscrição de uma alma.



Outra questão a ser proposta é em relação ao "Tempo". O Tempo presente em cada obra e a faz singular no seu existir. Esse tempo que ajuda a criar novas formas de olhar, ao revelar como a obra se mantém sempre a mesma à medida exata em que se descobre sempre outra - com outras interpretações, e portanto  aberta a novos significados, que segundo Heidegger é o que faz ser o lugar "da verdade" de uma obra, da verdade que se revela sempre como um acontecimento atemporal, por gerar com este olhar a admiração e o espanto.
"O que nos parece natural é unicamente o habitual do há muito adquirido, que fez esquecer o inabitual donde provém. Este inabitual, todavia, surpreendeu um dia o homem como algo estranho, e levou o pensamento ao espanto" (Heidegger, 1990, pg. 17).
Esse espanto, ou uma abertura para o ser da obra, carrega a evidência do acontecimento da verdade na obra, o que quer dizer que é na obra que a verdade se cria, que se instaura um mundo, onde a arte, portanto, na sua essência é uma origem.

anexos e discussões compilados
por Juracy Giovagnoli dos Santos

domingo, 5 de fevereiro de 2012

DIRETRIZES E ORIENTAÇÕES

Aulas de pintura Sergio Fingermann 2012

Como nossas aulas estão começando, gostaria de repassar com vocês (e apresentar para aqueles que ingressam agora) algumas das diretrizes e orientações com relação ao funcionamento do curso que começará agora em fevereiro.

  I. Organização das aulas As aulas têm dois focos: reflexão e prática. São aulas coletivas, nas quais o aluno desenvolve um projeto poético pessoal sob a orientação do artista Sergio Fingermann.

 A orientação para cada aluno também é coletiva e individual, com indicação de bibliografia específica. Material: Os materiais utilizados durante as aulas são de responsabilidade dos alunos (telas e tintas).


Dias e horários: As aulas acontecem das 09h00 às 12h30, uma vez por semana (às terças ou quartas-feiras)#.

Calendário semestral: Aulas às terças-feiras Fevereiro Março Abril Maio Junho 7,14, 23,# 28 6, 13, 20, 27 3, 10, 17, 24 3#, 8, 15, 22, 29 5, 12, 19, 26
Aulas às quartas-feiras Fevereiro Março Abril Maio Junho 1, 8, 15, 22#, 29 7, 14, 21, 28 4, 11, 18, 25 2, 9, 16, 23, 30 6, 13, 20, 27


Tema a ser trabalho no ano:

Memória e imagem Procurar algo atrás daquilo que vemos. Interrogar: o que nunca se revela aos nossos olhos? O que está na origem? A proposta é trabalhar a noção de tempo e história como se fosse uma espécie de material, como a argila. O tempo é algo que se pode modelar; a argila é algo que pode se esculpir e fazer imagens.



  Bibliografia sugerida: ARGAN, Julio Carlo. Imagem e persuasão: Ensaios sobre o barroco. São Paulo: Cia das Letras, 2004.

MANGUEL, Alberto. Lendo imagens: uma história de amor e ódio. São Paulo: Cia das Letras, 2009. MATISSE, Henri. Escritos e reflexões sobre arte. São Paulo: Cosac & Naif, 2007


. Livros do artista:


FINGERMANN, Sergio. Fragmentos de um dia extenso. São Paulo: BEI, 2001. FINGERMANN, Sergio. Gravura: trama de sobras. São Paulo: BEI, 2007. FINGERMANN, Sergio. Elogio ao silêncio. São Paulo: BEI, 2007. FINGERMANN, Sergio. Uma aprendizagem. São Paulo: BEI, 2010.



Ver também site de Sergio Fingermann: WWW.fingermann.com.br (Seção: “Textos críticos”, textos sobre o artista) II. Pagamento Datas: Os pagamentos deverão ser efetuados impreterivelmente em toda primeira aula do mês. O aluno assume o compromisso de frequentar os 10 meses de aula no ano, com o pagamento correspondente. Aqueles que faltarem deverão efetuar o pagamento antecipado do período em que estiverem ausentes (não haverá desconto). Valores: A mensalidade é de R$ 500,00. Sergio Fingermann Tel. (11) 9347 7991 │e-mail: sfingermann@gmail.com │www.fingermann.com.br